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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

História das Minas de Ouro e Diamante: Caraça, o Maior Colégio da História do Brasil

“Entre a luz e o mistério, até as pedras se humanizam.”

José Nazareno Ataíde, ex-aluno.




Majestosamente, encravado na serra de mesmo nome, no município de Catas Altas/MG, numa região de fauna e flora riquíssimas, zona de transição entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, em meio a ocorrências geológicas monumentais, tais como cavernas e gargantas profundas, escarpas vertiginosas, belíssimas cachoeiras, rios cristalinos, campos de altitudes, paisagens rupestres, picos, vales e montanhas, encontra-se situado o Santuário do Colégio do Caraça, historicamente, o mais ontológico instituto de formação filosófica, educacional e cultural do estado de Minas Gerais e do Brasil, de propriedade da Província Brasileira da Congregação da Missão, dos Padres Lazaristas, da Sociedade São Vicente de Paulo.
O complexo do Caraça  se estrutura como uma verdadeira cidadela, composta por vários prédios que vão da arquitetura colonial, passando pelo barroco, até o neo-gótico, e são interligados por uma série de ruelas, passadiços, corredores, escadas e passagens. O Caraça se encontra posicionado de maneira em que se aproveita dos íngremes paredões de granito da serra em formato de ferradura de seu entorno para guarnecer sua retaguarda e seus flancos, como se fosse uma verdadeira fortaleza natural. De modo que o único acesso ao Caraça que dispensa a prática de dificílima escalada é por meio de uma rota sinuosa que chega a seu portão frontal(imagem abaixo).   


Em 1881, o Imperador Pedro II esteve no Caraça e exclamou: “só o Caraça paga toda a viagem a Minas!”
O botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius passou pelo Caraça, na segunda década do séc. XIX, e se impressionou com sua imensa variedade de plantas e de animais.
O famoso naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire também esteve no Caraça, em 1816, e o definiu como “o grande desfiladeiro existente na Serra do Espinhaço”, nome da extensa cordilheira riquíssima em minérios, principalmente, ferro, ouro e gemas, que se entende de norte a sul do estado de Minas Gerais, onde, ao final do séc. XVII, foram descobertas e estabelecidas as mais fabulosas Minas de Ouro de toda a humanidade, não só pela vasta difusão e extraordinário volume extraído das jazidas, mas, principalmente, pela civilização complexa, riquíssima, sincrética e fundida no índio brasileiro, no branco europeu e no negro do Congo, que ali floresceu, da qual o Barroco e o Rococó ainda são o maior e mais sublime expoente de arte deste continente Americano.   
E é no contexto colonial do Ciclo do Ouro que se insere o início da história do Caraça, em 1774, quando, vindo de Portugal, o Irmão Lourenço funda ali um eremitério, destinado a receber peregrinos à procura de retiro e penitência.  Lourenço, então, constrói uma capela barroca, evocada a Nossa Senhora Mãe dos Homens, e manda vir de Roma 86 relíquias, das quais a mais preciosa é o corpo embalsamado de São Pio Mártir (foto abaixo), soldado romano crucificado por professar a fé cristã e exumado da Catacumba de Santa Ciríaca, onde, no subsolo romano, descansam os primeiros mártires da Cristandade. Trata-se do primeiro corpo de santo, trasladado ao Brasil.


Em 1820, após a morte do Irmão Lourenço, Dom João VI, rei de Portugal, Brasil e Algarves, já devidamente instalado no Rio de Janeiro, doa o Caraça ao padre ultramontano (reformista) Antônio Ferreira Viçoso (Dom Viçoso), lazarista e filho da Ordem de São Vicente de Paulo, que ali estabelece o Noviciado Brasileiro da Congregação da Missão, inaugurado com o nome de Casa Imperial de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Neste mesmo ano, é fundado o Colégio do Caraça, um fabuloso educandário que viria ser uma das mais sólidas, tradicionais e importantes instituições culturais do estado de Minas Gerais e do Brasil, em toda a história. Em 1883, é consagrado o atual grande templo do Caraça, substituindo a pequena ermida do Irmão Lourenço. É quando, finalmente, se inaugura no Brasil o estilo neo-gótico. A partir de então, como em rivalidade com as íngremes escarpas geológicas de seu redor, eleva-se aos céus a esguia torre da nova igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens, cujos 15 vitrais verticalizados passam a conduzir os raios solares ao interior da nave, intensamente, iluminada, anunciando que, doravante, o homem poderia alcançar as graças do Criador por meio das Luzes do Conhecimento.
Quase onze mil alunos passaram pelo Colégio do Caraça. Durante quase dois séculos, o Caraça produziu uma notável elite pensante para Minas e para o Brasil. Nenhuma outra instituição de ensino brasileira pode ter o orgulho de, por exemplo, ostentar, uma lista de 120 ex-alunos, em que, absolutamente, todos foram deputados por Minas Gerais e por vários outros estados, deputados dos governos centrais, senadores, governadores e vice-governadores de estados de diferentes regiões do país ou presidentes e vice-presidentes da República, como faz o Caraça. Isso, sem contar os inúmeros ex-alunos que se dedicaram apenas à política local de seus municípios, tornando-se prefeitos, vice-prefeitos ou vereadores e não fazem parte desta lista. O Caraça também formou cerca de 500 padres e 21 bispos, no Seminário que também manteve, além de uma grande variedade de outros profissionais como magistrados, ouvidores, ministros, advogados, economistas, professores, médicos, engenheiros, cientistas, etc.
Entre os alunos que estudaram no Colégio do Caraça e que se destacaram na política regional e nacional os nomes mais, comumente, lembrados são os de Afonso Augusto Moreira Pena, Antônio Augusto de Lima, Antônio Benedito Valadares Ribeiro, Arthur da Silva Bernardes, Astolfo Dutra Nicácio, Olegário Dias Maciel, entre outros. Mas, apesar de não terem estudado no Caraça, ainda se formaram no humanismo dos Padres Lazaristas figuras como João Pinheiro da Silva, Raul Soares de Moura, Gerson Camata, Juscelino Kubitschek de Figueiredo, João Kubitschek de Oliveira, Bento Munhoz da Rocha, Ney Braga, Jânio da Silva Quadros e até Fernando Collor de Melo.
O historiador José Ferreira Carrato descreve em sua obra “As Minas Gerais e os Primórdios do Caraça” as características de um típico ex-aluno do Colégio do Caraça, também chamado de caracense:


“O forte dos ex-alunos caracenses é o bacharelismo… uma sólida formação humanística constante do melhor domínio da arte de falar e escrever bem, fundamentada em estudos intensivos da retórica, do Latim e da Língua Pátria. Mais Latim que tudo mais. O resultado desta mentalidade é um sujeito profundamente convicto de suas crenças religiosas. Severo até a dureza da moral, mas temperando nas convicções com certa bonomia quase dialética, a que não falta o respeito pelas convicções alheias; geralmente excelente conversador, muito bom orador, escrevendo com fluência e elegância…” 

Desde sua fundação no séc. XIX, o Colégio do Caraça figurou como verdadeiro irradiador dos princípios humanistas e de seus conceitos filosóficos, atuando como instituto fundamental na matriz da chamada “Mineiridade” e como indutor de ideais progressistas e reformistas que, por exemplo, influenciaram toda a modernidade brasileira. 
Na madrugada de 28 de maio de 1968, um incêndio preciso atingiu a Grande Biblioteca do Colégio do Caraça, consumindo grande parte de seu precioso acervo, composto por 50.000 volumes, entre os quais, obras de Aristóteles, Romero, Virgílio, Camões, além de raríssimas coleções como a “Flora Brasiliensis” de Von Martius, a única existente no país, e a “História Natural” de Plínio, o Velho, editada antes da invenção da Imprensa, por Gutenberg. Da Biblioteca, o fogo se alastrou por todo o prédio que também abrigava um museu de história natural, o teatro e os dormitórios dos alunos. Milagrosamente, todos os 90 alunos que, no momento do incêndio, dormiam nos alojamentos acima, se salvaram e ainda conseguiram, heroicamente, socorrer das chamas cerca de 15.000 livros, justamente, os dos séculos XVI, XVII e XVIII, considerados os mais raros. Encerravam-se, assim, de maneira trágica e repentina, as atividades de tão glorioso Colégio.
Na época, um fogareiro elétrico, supostamente, esquecido ligado no cômodo da Encadernação, setor da Biblioteca utilizado para o restauro dos livros, foi apresentado, publicamente, como a causa do terrível sinistro.  Ainda hoje, no museu, posteriormente, criado entre as alvenarias de pedra que restaram do prédio incendiado, o aludido fogareiro elétrico da marca Fame se encontra em exibição, assumindo, oficialmente, toda a culpa pelo ocorrido.
Após o incêndio de 68, o Colégio encerrou suas atividades e o Caraça caiu em situação de desamparo, sendo, completamente, ignorado pelas autoridades governamentais, apesar dos imensos esforços da AEALAC (Associação dos Ex-Alunos, Lazaristas e Amigos do Caraça).
Somente após a redemocratização do Brasil, com a promulgação da Constituição de 1988, o IPHEA (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais), em 1989, procedeu ao restauro de parte do prédio incendiado e, em 1990, ele foi re-inaugurado, passando a abrigar um valioso Museu, um auditório e a atual Biblioteca, composta pelos 15.000 volumes que foram, heroicamente, salvos pelos alunos e padres naquela fatídica madrugada de 28 de maio de 1968. Ainda em 1990, foi criada a Reserva Particular do Patrimônio Natural do Santuário do Caraça, com 12.403 hectares de área, ambientalmente, protegida. O Caraça ainda guarda um órgão de 700 tubos, o primeiro construído em Minas, a “Santa Ceia”, maior tela de Ataíde, mestre-pintor do Barroco Mineiro, contemporâneo e consorte artístico de Mestre Aleijadinho, Academias Literárias, além de várias outras preciosidades, muitas delas, ainda a serem re-descobertas.

Órgão de 700 tubos do Caraça


Santa Ceia de Ataíde, uma das mais identitárias obras de Minas Gerais.  
Atualmente, o Caraça é uma Casa Religiosa que oferece hospedagem aos que procuram conhecer suas belezas naturais, sua história e sua densa cultura (foto abaixo).          

Veja também: 1968, Também para o Colégio do Caraça, o Ano que não Terminou